segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Cory's shearwater in Berlengas Isl.

A Cagarra nas Ilhas Berlengas
Cagarra (pinto)

No 36º aniversário da Reserva Natural das Berlengas, em 3 de Setembro, fui convidado pela SPEA-Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves para participar numa visita à Ilha. Do programa constavam passeios por terra e mar, informação sobre as actividades desenvolvidas no arquipélago relacionadas com o Projecto Life e uma visita à colónia de cagarras.


O elefante

Venho acompanhando os trabalhos desenvolvidos na ilha relacionados com a erradicação de plantas e animais nocivas às espécies que se pretende preservar, confesso que já estive para visitar as Berlengas mas, por duas vezes, o mau tempo me impediu de fazer a viagem de barco.


Agora, embora tivesse que percorrer mais de 500 kms num dia, aceitei o convite da SPEA motivado pela oportunidade de visitar colónia de cagarras.

É desse dia excepcional que hoje venho relatar, por texto e imagens, essa interessante experiência.

Cagarra ao largo das Berlengas

Dado que a cagarra é uma ave essencialmente pelágica, era sabido que eventualmente só as iríamos ver no mar durante a viagem para a ilha porque elas só regressam a terra durante a noite para alimentar as crias.
Na visita à colónia pude constatar o excelente trabalho desenvolvido na construção e reposição de ninhos no sentido de preservar e procurar aumentar a colónia no arquipélago.


Algumas zonas da colónia são monitorizadas por câmaras e existe um ninho com uma câmara ligada permanentemente para acompanhar a evolução da cria.

Até meados de Outubro, altura em que sairá do ninho, é possível acompanhar no “ninho-ao-vivo”  as imagens, em tempo real, mostrando o crescimento e os cuidados parentais de uma cria nascida no dia 7 de Julho.
Infelizmente a jovem cagarra já vai dejectar na direcção da saída do ninho e, de vez em quando, acerta na objectiva e fica uma imagem “borrada” até que a limpem.


Outros dados sobre a CAGARRA (Calonectris borealis) em Portugal:
A cagarra reproduz-se em colónias em praticamente todas as ilhas e ilhéus dos arquipélagos das Berlengas, dos Açores e da Madeira e é provavelmente a ave marinha que nidifica em Portugal que existe em maior abundância.
Censos realizados entre 2005 e 2012 nas Berlengas, ilha do Corvo (Açores) e na Selvagem Grande estimaram uma população superior a 50.000 casais nestas ilhas.
Não existem estimativas precisas para as restantes ilhas dos Açores, da Madeira, das Desertas e do Porto Santo. Graças às medidas de conservação realizadas nas Berlengas, a população reprodutora cresceu 10,1% ao ano no mesmo período.
Mais recentemente e segundo resultados obtidos na “Campanha SOS Cagarra  a população nidificante açoriana representa 75% da população mundial da subespécie "Calonectris diomedea borealis" e 65% da espécie Calonectris diomedea sendo a ave marinha mais abundante nos Açores, totalizando nesse ano cerca de 188.000 casais reprodutores.
A área de distribuição no território português permanece estável há mais de um século.  


O ARQUIPÉLAGO DAS BERLENGAS/Reserva Natural das Berlengas
O arquipélago é composto pelas ilhas graníticas da Berlenga Grande, Estrelas e Farilhões fica situado a cerca de 6 milhas a oeste do Cabo Carvoeiro em Peniche.
A Berlenga Grande foi a primeira área protegida do país quando o Rei Afonso V de Portugal em 1465 proibiu a caça na ilha.
Logo-RNB


Criada em 1981 a Reserva Natural das Berlengas compreende uma área muito vasta de reserva marinha situada na envolvente do arquipélago e desde Junho de 2011 é considerada Reserva Mundial da Biosfera da UNESCO.


Além da cagarra nidificam ainda outras aves marinhas no arquipélago , a Galheta (Phalacrocorax aristotelis), o Roquinho (Oceanodroma castro) e a Gaivota-de-patas-amarelas(Larus michahellis).
O Airo (Uria aalge) por ser a ave mais emblemática das Berlengas -porque era aqui o único local em Portugal onde nidificava- foi adotada como símbolo da Reserva Natural. O Airo nidificava em grandes números na Ilha da Berlenga. Todavia, a população reprodutora sofreu um declínio populacional vertiginoso na segunda metade do século XX.
De tal modo que dos 6000 casais estimados em 1939, em 1977 foram contados apenas 320 aves adultas na Ilha da Berlenga, numero que baixou para 70, em 1981.


A população tem vindo a diminuir e em 2002 registou-se o último caso de nidificação conhecido, admitindo-se agora que o Airo poderá estar extinta como reprodutora na ilha.

Juvenil de Larus michahellis

Sempre condicionados à disponibilidade dos barcos que fazem a viagem de travessia de Peniche para a Berlenga Grande, a ilha pode ser visitada de Junho a Setembro.

O Life Berlengas vai contribuir para a gestão sustentável da Zona de Protecção Especial (ZPE) das Berlengas, com o objectivo de conservar os seus habitats, plantas endémicas e populações de aves marinhas. Com este projecto pretende-se compreender as principais ameaças que afectam os valores naturais das Berlengas, em terra e no mar, e definir estratégias para as minimizar e erradicar.

Armeria berlengensis-endémica da Berlenga
Lagartixa de Carbonell Podarcis carbonelli berlengensis, endémica das Berlengas
Grutas naturais
O Grupo

Agradecimento:
Á SPEA pelo convite e aos técnicos pela agradável companhia e excelente trabalho desenvolvido com o grupo de visitantes.



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quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Norway Gulls (4)

Gaivotas da Noruega

-N[J0K1]- - Larus fuscus intermedius
No dia 31 de Agosto passado, quando cheguei à Praia de Matosinhos deparei com o areal coberto de gaivotas.
Não foi um dia calmo de recolha de registos de anilhas porque, como estava calor, vieram muitas pessoas à praia fazer as despedidas das férias e a partir de do meio da manhã as aves começaram a ser “expulsas” da praia. Ainda assim, registei 37 aves com anilhas, assim distribuídas:

Qtd
Espécie
País de Origem
Lider do Projecto
5
Larus fuscus
Holanda
Roland-Jan Buijs
1
Larus fuscus
Holanda
Norman Van Swelm
1
Larus fuscus
Inglaterra
Peter Rock
1
Larus fuscus
Inglaterra
Peter Stewart
1
Larus fuscus
Escócia
Iain Livingstone
1
Larus fuscus
Bélgica
Eric Stienen
1
Larus fuscus
Dinamarca
Kjeld Tommy Pedersen
2
Larus fuscus intermedius
Noruega
Morten Helberg
14
Larus fuscus
Guernsey
Paul Veron
1
Larus argentatus
França
Matthieu Fortin
2
Larus fuscus
França
Matthieu Fortin
2
Larus fuscus
França
Julien Gernigon
1
Larus michahellis
Espanha
David Cuenca
2
Larus michahellis
Espanha (Múrcia)
Orfão
1
Larus michahellis
Portugal ( Centro de Reabilitação)
Rute Costa
1
Larus michahellis
Portugal
Nuno Oliveira

Todavia, hoje vou dedicar algumas linhas às duas aves provenientes da Noruega por ser a primeira vez que são avistadas em Portugal.
N[J956L] Larus fuscus intermedius
Esta ave foi anilhada ainda no ninho, em Julho de 2015, sendo este é o seu primeiro registo fora da Noruega, portanto com um histórico migratório irrelevante.

Interessante é a história dos 10 anos de vida da outra ave:

-N[J0K1]- - Larus fuscus intermedius

- Anilha - -N[J0K1]-
- Anilhador - Finn Jørgensen  
- Idade quando anilhada: Pinto
- Data e local da anilhagem – 11.07.2007 - Haaboene,Lindesnes,Vest-Agder,Norway 

                            Quadro de observações anuais
ANO
JAN
FEV
MAR
ABR
MAI
JUN
JUL
AGO
SET
OUT
NOV
DEZ
*
2007





ring







2008






F





1
2009












0
2010




N







1
2011






N





1
2012

M




N





2
2013












0
2014




N







1
2015



E




N



2
2016




N

N





2
2017




N


N/P




3
* = Total de avistamento registados
F – França; N – Noruega; M -Marrocos; E -Espanha; N/P-Noruega e Portugal

Observadores:
Na Noruega: Finn Jørgensen (ringer); Morten Helberg; Nils Helge Lorentzen; Wiblemo-Jørgensen, Gordon; Bentsen, Thomas
Na França: Adrien Mauss
Em Marrocos: Breistøl, Arild - Cope,Richard - Helberg, Morten - Jørgensen, Finn - Pedersen, Christia
Em Espanha: Salvador Garcia
Em Portugal: José Marques

Noruega>Marrocos=3.976 km

Curiosidades migratórias:
-Atendendo aos registos de passagem conhecidos, pode-se presumir que utiliza a costa atlântica como rota migratória;
-Antes da observação em Matosinhos (31.08.2017) foi registada a presença em Mandal, na Noruega, no dia 9 do mesmo mês. Assim, no máximo, percorreu a distância que separa Mandal de Matosinhos (2223 km em linha recta) em 22 dias. 


Agradecimento:
A história de vida desta ave foi disponibilizada por: Stavanger Museum Natural History  (Noruega) 


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